Porque nos blogs falamos daquilo que tem importância, durante algum tempo, falava dos sentimentos e coisas que lia. A vida muda e o facto de ter que adaptar-me à vida e às suas mudanças, agora vou partilhar aquilo que tenho feito para adaptar-me à minha vida de poupança. O titulo continua a adaptar-se. Picar o Porco que Dorme é largar as atitudes amorfas.
sexta-feira, 17 de outubro de 2014
Será que é isto é é gostar?
Perguntaste-me.
-Será que é isto que é gostar?
Respondi:
- Não, gostar é guardar momentos como fotografias. É guardar palavras como poemas. É guardar abraços, como Mundos.
É ter saudades do que já não é nosso. É suspirar como quem morre. É sentir um vazio que nada nem ninguém preenchem. Mas é deixar ir quem não nos pertence, só porque há algo maior e inexplicável...
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
Amor como um Trapézio
Um dia, com um sorriso tímido, que eu sabia ser sempre prenúncio de uma pergunta importante:
- Porque não tens medo do Amor e da dor que pode trazer?
Encolhi os ombros, suspirei, abri o meu sorriso e respondi-te:
- Imagino-o sempre como um trapézio, em que em cada movimento me sinto livre, mas que arrisco-me a cair. Mas sei também que tenho uma rede, lá em baixo, que são os meus amigos. Não impedem a queda, mas amortizam-na, de modo a que não me fira mais do que o necessário . Permite-me não ter medo de voltar a balançar-me.
domingo, 12 de outubro de 2014
e a morte torna-se alheia, mais pequena, distante, como vista da rua, uma silhueta no interior de uma janela acesa onde não moramos, aguarelas, estantes, pessoas e a morte com os outros, não connosco, com os outros, familiar, trazendo pratos, ajudando na ceia, ocupando um dos três lugares no sofá, amável, risonha, simpática, estudando-os sem pressa e escolhendo um deles sem que dêem conta, ao observar a fotografia de um grupo que sei que a morte é a criatura sorrindo lá ao fundo, meio apagada, que se parece com alguém amigo de quem não lembramos a idade nem o nome, um parente que esteve ali o tempo inteiro, anos seguidos, a fitar-nos do álbum e só no momento de nos vir buscar, se apresenta, discreto, delicado, ia apostar que com pena, a morte
e um estranho com um pacotinho de bolos que nos cumprimenta de fugida nas escadas ou segura a porta do elevador à nossa espera, nos pergunta para que andar vamos e se despede numa inclinação de cabeça continuando a subir, se nos detivéssemos a examiná-lo, em vez de procurar a chave na carteira, compreenderíamos que o elevador não para conforme compreenderíamos que não entrava em nenhum apartamento porque não mora aqui, apareceu de visita, lembrou-se da gente...
António Lobo Antunes in, Exortação aos Crocodilos
domingo, 5 de outubro de 2014
São As Pessoas Como Tu
São pessoas como tu que fazem com que o nada queira dizer-nos algo, as coisas vulgares se tornem coisas importantes e as preocupações maiores sejam de facto mais pequenas. são as pessoas como tu que dão outra dimensão aos dias, transformando a chuva bem delirante orvalho e fazendo do inverno uma estação de rosas rubras.
As pessoas como tu, possuem não uma, mas todas as vidas. Pessoas que amam e se entregam porque amar é também partilhar as mãos e o corpo. Pessoas que nos escutam e nos beijam e sabem transformar o cansaço numa esperança aliciante, tocando-nos o rosto com dedos de água pura, soltando-nos os cabelos com a leveza do pássaro ou a firmeza da flecha. São as pessoas como tu que nos respiram e nos fazem inspirar com elas o azul que há no dorso das manhãs, e nos estendem os braços e nos apertam até sentirmos o coração transformar o peito numa música infinita. São as pessoas como tu que não nos podem nada, mas têm sempre tudo para dar, e que fazem de nós nem ícaros nem prisioneiros, mas homens e mulheres com a estatura da vida, capazes da beleza e da justiça, do sofrimento e do amor: são as pessoas como tu que interrogando-nos, se interrogam, e encontram a resposta para todas as perguntas nos nossos olhos e no nosso coração. As pessoas que por toda a parte deixam uma flor para que ela possa levar beleza e ternura a outras mãos. Essas pessoas que estão sempre ao nosso lado para nos ensinar em todos os momentos, ou em qualquer momento, a não sentir o medo, a reparar num gesto, a escutar um violino. São as pessoas como tu que nos ajudam a transformar o mundo.
Joaquim Pessoa in Ano Comum
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
Sou a Tua Casa
Sou a tua casa, a tua rua, a tua segurança, o teu destino. Sou a maçã que comes e a roupa que vestes. Sou o degrau por onde sobes , o copo por onde bebes, o teu riso e o teu choro, o teu frio e a tua lareira. O pedinte que ajudas, o asilo que te quer acolher. Sou o teu pensamento, a tua recordação , a tua vontade. E também o artesão que para ti trabalha, o medo que te perturba e o cão que te guia quando entras na noite. Sou o sitio onde descansas, a árvore que te dá sombra, o vento que contigo se comove. Sou o teu corpo, o teu espírito, o teu brilho, a tua dúvida. Sou a tua mãe, o teu amante, o marfim dos teus dentes. E sou, na luz do outono, o teu olhar. Sou a tua parteira e a tua lápide. Os teus vinte anos. O coração sepultado em ti. Sou as tuas asas, a tua liberdade, e tudo o que se move no teu interior. Sou a tua ressaca, o teu transtorno, o relógio que mede o tempo que te resta. Sou a tua memória, a memória da tua memória, o teu orgulho, a fecundação das tuas entranhas, a absolvição dos teus pecados. O teu amuleto e a tua humildade. Sou a tua cobardia, a tua coragem, a força com que amas. Sou os teus óculos e a tua leitura. A tua música preferida, a tua cor preferida, o teu poema preferido. Sou o que significas para mim, a ternura que desagua nos teus dedos, o tamanho das tuas pupilas antes e depois de fazer amor. Sou o que sou em ti e que não podes ser em mim. Sou uma só coisa. E duas coisas diferentes.
Joaquim Pessoa , Ano Comum
sábado, 20 de setembro de 2014
domingo, 14 de setembro de 2014
Há momentos em que só a dor nos prende à vida. entrei na banheira, girei a torneira do chuveiro, o mais quente possível, e chorei muito tempo debaixo de água. O ideal é à chuva, mas apenas resulta quando chove muito, e tem de ser num país tropical, bátegas tépidas, grossas e pesadas, dessas que limpam tudo. se não estiver a chover na altura em que vem o choro, e quase nunca está, então o melhor que uma mulher pode fazer é procurar um bom chuveiro. Chorei com pena de mim, assombrada pelo vazio que encontrei na minha alma. Chorei por não saber onde estava. Troquei a vida pelos palcos. Achei que podia fugir o amor. Enganei-me. O amor é um cão velho e tinhoso , porém obstinado, que nunca desiste. Abandonamo-lo no mato, para morrer de fome e de sede, para morrer de frio, porque queremos que morra, e dias depois ele está de regresso a casa, a abanar a cauda. Enxotamo-lo à pedrada, mas volta sempre.
José Eduardo Agualusa In , Barroco Tropical
Chego sempre demasiado cedo. Até tenho receio de morrer antes do tempo. Um dias destes morro e encontro o Senhor Deus em pijama, a longa cabeleira em desalinho, a lavar o rosto esplêndido e a escovar os dentes:
- Que porra faz você aqui?- Deus é brasileiro. Carioca, de certeza absoluta. Têm de imaginar o sotaque. -Vai embora, rapaz. Ainda não chegou a sua hora.
José Eduardo Agualusa , in Barroco Tropical
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