domingo, 14 de setembro de 2014

Há momentos em que só a dor nos prende à vida. entrei na banheira, girei a torneira do chuveiro, o mais quente possível, e chorei muito tempo debaixo de água. O ideal é à chuva, mas apenas resulta quando chove muito, e tem de ser num país tropical, bátegas tépidas, grossas e pesadas, dessas que limpam tudo. se não estiver a chover na altura em que vem o choro, e quase nunca está, então o melhor que uma mulher pode fazer é procurar um bom chuveiro. Chorei com pena de mim, assombrada pelo vazio que encontrei na minha alma. Chorei por não saber onde estava. Troquei a vida pelos palcos. Achei que podia fugir o amor. Enganei-me. O amor é um cão velho e tinhoso , porém obstinado, que nunca desiste. Abandonamo-lo no mato, para morrer de fome e de sede, para morrer de frio, porque queremos que morra, e dias depois ele está de regresso a casa, a abanar a cauda. Enxotamo-lo à pedrada, mas volta sempre. José Eduardo Agualusa In , Barroco Tropical

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