domingo, 12 de outubro de 2014

e a morte torna-se alheia, mais pequena, distante, como vista da rua, uma silhueta no interior de uma janela acesa onde não moramos, aguarelas, estantes, pessoas e a morte com os outros, não connosco, com os outros, familiar, trazendo pratos, ajudando na ceia, ocupando um dos três lugares no sofá, amável, risonha, simpática, estudando-os sem pressa e escolhendo um deles sem que dêem conta, ao observar a fotografia de um grupo que sei que a morte é a criatura sorrindo lá ao fundo, meio apagada, que se parece com alguém amigo de quem não lembramos a idade nem o nome, um parente que esteve ali o tempo inteiro, anos seguidos, a fitar-nos do álbum e só no momento de nos vir buscar, se apresenta, discreto, delicado, ia apostar que com pena, a morte e um estranho com um pacotinho de bolos que nos cumprimenta de fugida nas escadas ou segura a porta do elevador à nossa espera, nos pergunta para que andar vamos e se despede numa inclinação de cabeça continuando a subir, se nos detivéssemos a examiná-lo, em vez de procurar a chave na carteira, compreenderíamos que o elevador não para conforme compreenderíamos que não entrava em nenhum apartamento porque não mora aqui, apareceu de visita, lembrou-se da gente... António Lobo Antunes in, Exortação aos Crocodilos

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